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segunda-feira, 27 de julho de 2015

PRECONCEITO




PORQUE A POLICIA
DISCRIMINA E MATA ??
 

AP


Polícia para quem precisa (ser morto)

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Quando crianças, eu e minha irmã fazíamos uma brincadeira com minha mãe, que era pular no pescoço dela gritando “acalme- se!”. Evidentemente ela não só não se acalmava como ia ficando cada vez mais brava e incomodada, enquanto gritávamos mais alto e a clacoalhávamos cada vez mais. Essa era a graça: impedir que ela se acalmasse, gritando “acalme-se!”.

Não tive como não lembrar disso vendo o vídeo de uma situação bem mais triste e brutal: a abordagem policial que levou à prisão é à morte de Sandra Bland, uma negra de 28 anos, nos EUA. O vídeo – principalmente a versão não-editada – mostra como o policial do Texas que a abordou parece empenhado em tirar Sandra do sério, e/ou arrancar uma reação subserviente.

Como nota o colunista negro do New York Times, Charles M. Blow, a série de atitudes do policial, desde o início da perseguição (por Sandra ter mudado de faixa sem ligar a seta do carro) até o momento em que a joga no chão e algema, não faz muito sentido. Basicamente, a prisão se dá porque o policial exige que Sandra apague o cigarro – quando a situação aparentemente já está resolvida (Blow voltou ao assunto algumas vezes em sua coluna, com enfoques diferentes e complementares). Sandra pode ter se suicidado, três dias depois, em sua cela – ou não. Pode ter sido morta. Mas não vem ao caso: como diz o escritor Lee Siegel, foi essa prisão injustificada e abusiva que a matou.

No Brasil conhecemos isso bem: é herança da ditadura militar (e historicamente um comportamento anterior a ela) o autoritarismo policial escancarado em situações em que não há delito comprovado, ou sequer presunção de delito. A policia se coloca, frequentemente, na posição de exigir a mesma subserviência que o policial texano parecia esperar de Sandra (que não tinha feito, e não fez em nenhum momento, nada gravemente ilegal). Evidentemente essa exigência de subserviência não se aplica a todos os cidadãos, nem aqui nem lá.

Uma amiga minha reclamava outro dia que sofreu uma enquadrada da guarda civil metropolitana outro dia, no Parque Augusta, ao se afastar um pouco do grupo que fazia uma manifestação com projeção de filme, o Cinemata, exatamente para dialogar com a polícia sobre o horário de fechamento. Foi o terceiro enquadro dela no centro da cidade este ano, sendo os anteriores por estar em locais onde se fazia poesia e música, um deles à luz do dia.

Ela é branca e articulada; tem conseguido contornar bem as situações. No caso do parque, ouviu a pergunta: “porque vocês estão nos tirando de ocorrências reais?”. Eles deviam fazer essa pergunta a si mesmos, e não perder tempo e energia reprimindo comportamento, como se fossem bedéis e não policiais. Pior, bedéis ressentidos e vingativos.

Minha amiga mencionou a escala de Kohlberg, um psicólogo de Harvard que criou uma teoria do comportamento moral. A escala vai do estágio 1, no nível pré-convencional (castigo e obediência sumários) até o estágio 6, no nível 3 (quando há a noção de que as leis e regras devem derivar de princípios éticos, e de que estes se sobrepõem a elas). A expressão “bandidos fardados” se aplica a essa polícia subdesenvolvida que quer impor sua noção de “respeito” sem entender em que princípios esse respeito se basearia; que tem a autoridade formal (e armada) sem ter autoridade moral real e/ou reconhecida.

Para minha amiga, a polícia confunde o estágio 3 (a do reconhecimento moralista e conformista dos “papéis sociais”) com o estágio mais elevado. Se pensarmos bem, a parte da sociedade que está sob influência das igrejas neopentecostais está nesse mesmo nível: entende que há uma ordem a ser mantida, mas não os fundamentos éticos dessa ordem; decoreba bíblica não é inerpretação teológica. (Trata-se da necessidade de acreditar em uma “palavra” que já vem pronta, de uma origem supostamente divina. A obediência a essa “palavra” é supostamente recompensada com o conforto pessoal; no que o funcionamento evangélico seria mais simplório que o católico, em que a recompensa é de ordem moral e não material, ou seja, do estágio 4 ou 5). A escala de Kohlberg também se aplica bastante bem aos embates sobre a redução da maioridade penal.

Durante a ditadura militar, expressões artísticas eram censuradas de acordo com regras muito mal-definidas – não só por questões políticas ou comportamentais, mas pela detecção de “desvios” que variavam de acordo com o “senso moral” do censor (ou seja, com seu estágio na escala de Kohberg). Num festival ginasiano de que participei, nos anos 1970, meu grupo teve uma letra totalmente vetada pela censura federal (todas as letras eram submetidas à censura) porque tratava de… flatulências. Falar de peidos nos colocava mais ou menos no mesmo grau de restrição do Manual da Guerrilha Urbana de Marighella. Assim era a ditaburra.

Nos EUA, o caso de Sandra Bland vem se somar a uma série de ocorrências recentes que foram objeto de protestos, em que cidadãos são mortos, basicamente, por serem negros (coloque-se um branco em cada uma delas e o tratamento seria outro). O rapper Emicida publicou outro dia um relato no facebook de tratamento racista em São Paulo, não pela polícia (o usual), mas por taxistas.

Ele relata: “depois de ter tirado todas aquelas fotos, ter saído de uma entrevista, indo renovar o passaporte pra tocar na gringa outra vez, com a cara na capa da revista e tudo mais. Nada importa. O taxista não era fã de rap. No final, a gente era só dois pretinhos, e todos sabem como se tratam os pretos”. Não é só a polícia que tem essa noção equivocada do lugar do outro. É interessante notar que o racismo e as saudades da ditadura são sintomas da nossa crescente mediocridade. Como o policial texano, há muita gente que se comporta como se tivesse autoridade para “devolver” o outro ao lugar subalterno a que acha que ele pertence – ou talvez matá-lo, se ele tentar resistir.


AUTOR:

Alex Antunes

Alex Antunes é jornalista, escritor e produtor cultural e, perguntado se era um músico frustrado, respondeu que música é a única coisa que nunca o frustrou. Foi editor das revistas Bizz e Set, e escreveu para publicações como Rolling Stone, Folha Ilustrada, Animal, General, e aquela cujo nome hoje não se ousa dizer. Tem uma visão experimental da política, uma visão política do xamanismo, e uma visão xamânica do cinema.

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